Olá Portugal - Olá sec. XXI


Esta não é uma foto da cunhada do primo do melhor amigo da irmã da mercearia; da qual me senti sensível e tocada. Esta é a história da Valdemira, que faz parte da minha família desde o momento em que, num infeliz encontro num Hospital, os meus pais a conheceram. Esta não é uma foto tirada da Internet, é uma foto tirada por mim. Esta também não é uma história de alguém que vai conseguir um cêntimo por cada partilha, vindo por obra e graça do Espirito Santo. Aliás - esta não é  uma história. Podia continuar a manter na minha privacidade e a fazer apenas parte da minha vida, uma realidade que escapa a muitas das pessoas e às suas vidas comodas. No entanto - já que ninguém faz nada - principalmente as pessoas a quem compete que o façam, faço eu - grito eu. 

Já, de uma forma breve num status qualquer perdido pelos outros mil que coloco, falei sobre ela. Sobre o facto de ter tido dois filhos perfeitamente saudáveis que agora se encontram com uma paralisia cerebral profunda devido à junção do sangue dos pais. Sobre o facto de lhe ter sido retirado o abono extra devido a serem crianças portadoras de uma deficiência profunda sem lhe ser dada uma justificação. Sobre o facto de ter cerca de 400€ por mês para pagar a renda, a comida, as despesas - para sobreviver, bem ou mal - (o bem foi irónico, claramente) com três filhos, sendo que apenas um é saudável. Sobre o facto de estar prestes a ser posta a viver numa garagem (olá mundo, quão sensíveis estamos hoje, hum?). Sobre o facto de que sempre que foi preciso, pôs um filho nas costas, outro ao peito, outro no braço, e seguiu para Hospitais, para Infantários, para "Assistentes Sociais" (tosse). 

Claro que a invisibilidade é melhor - claro que os casos URGENTES, devem ser mantidos entre quatro paredes. Claro que os media  ainda não lhes interessou falar sobre uma emigrante desesperada - mas mais que desesperada - super elogiada por tudo o que são enfermeiros ou médicos. Porque apesar das dificuldades, não abandona os filhos - nunca. Porque apesar das dificuldades, tem tempo para se sentar e fazer tranças à filha, para lhe pintar as unhas - para sorrir e chorar. Tem tempo, só tem tempo - para ser Mãe. Além de Mulher; de Pessoa; uma Mãe enorme, gigante. Um super-ser-humano.

Falem-me por favor sobre a assistência que não lhe dão; as justificações que não se sentem na obrigação de prestar; as burocracias que não levam a lado nenhum. Falem-me lá sobre quão difícil a vida é atrás dessas secretárias onde os papeis que chegam são infinitos e nenhuma ajuda é prestada? Entretanto vou continuar a mandar e-mails sem resposta; cartas; telefonemas; vou continuar a ser a filha de uma Mãe igualmente grande, que não abandona esta Senhora.

Lamento se a foto pode chocar; mas mais do que uma foto chocar - é um choque de vida - um choque de país; uma miséria de sociedade esta que nos tornámos. Agora vá, vamos fingir que está tudo bem no mundo outra vez e que os únicos problemas que existem são os escândalos que assistimos no Big Brother VIP, enquanto a Valdemira arranja uma estratégia para não viver numa garagem, sem janelas, com os três filhos.

Comentários

Diogo Martins disse…
É tão triste este tipo de coisas que se passam no nosso país.

Sei que não é nem perto de ser igual, mas já quando andava no Ensino Básico e Secundário, a minha mãe que estava divorciada do meu pai e que teve que me criar sozinha sem qualquer ajuda do mesmo, viu-me serem tirados os apoios sociais aos quais tinha direito, enquanto gente que andava de carro para a escola num trajeto que se podia fazer a pé, que passava férias todos os anos nos melhores hotéis do Algarve e que tinha bem mais posses do que nós tinha acesso a Abonos, SASE, bolsas de estudo e afins. É revoltante e é uma merda.

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