Dois assassinatos.
Desenhei a tragédia em duas páginas brancas. Todas as formas em que, com as mãos sujas de sangue, fiz a justiça não poética dos finais merecidos. As saias rasgadas e os dedos compridos de vontades infiéis cosem-se civilizadamente. Caixas de músicas e aplausos em olhos de quem sabe o que é não ordenar gestos. Uma raiva que consome a capacidade de ponderação. Desenho a tragédia em dois pensamentos. Num - existe uma calma estratégica e uma verbalização violenta de paz forçada. Noutro - todas as armas que são reflexos das atitudes d'homens deste mundo. Sorrimos - quem espera por uma igualdade que não chega. As leis da vida - as leis do povo.
Desenhei a tragédia em dois vestidos. Curtos e pretos - com rendas de viúvas de pressupostos. Estilista dos meus dias, rasgo da pele todas as marcas de quem invade. Em banhos rápidos que limpam a alma de memórias de estranhos que se tornam protagonistas dos crimes que canto. De quem me suga. E numa esquina cheia de pessoas - numa cidade cheia de gente - registo os traços cor de sujo com que perdi de vista mais um assassinato. Mais uma história bonita de livros que ninguém sabe que são verdade. Autora da miséria, nasço socialmente predisposta a invasões e a olhares que repugnam. Que revoltam.
Desenhei - e apaguei. Todas as tragédias. Todos os homicídios. Só não sei até quando não serei a autora da revolução - de ter nascido num corpo que o mundo arquitetou para que não fosse meu. Para que eu não seja minha. Até quando não troco as palavras por duas folhas brancas. Dois pensamentos. Dois vestidos. E três pistolas.
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