Para vocês, que não têm depressão.
Este não é um pedido de socorro. Esta é uma tentativa de colocar em palavras o que não se vê. E eu sei - eu sei, a culpa não é vossa. E eu sei - eu sei que não dá para ver e é quase impossível curar o que não se vê. Ajudar o que não se sabe. A culpa não é vossa que o vosso amor não saiba viver. A culpa não é vossa de que os vossos amigos não atendam as chamadas - mas não temos força. Para viver. Para atender as chamadas. Esta é uma tentativa de colocar em palavras o que não se vê.
Acordam, vestem-se. Nessa manhã o banho parece difícil e não têm tempo para combinar as cores das roupas. Acordam, vestem-se. Nessa manhã a porta de casa não abre. Abre - mas vocês não a abrem. Sabem porque? Eu não sei. Imaginem que têm uma corda que vos prende as mãos e querem abrir a porta, querem muito - com muita força. Mas não dá. Sabem porque? Eu não sei. Mas eu não consigo abrir a porta. E a culpa não é vossa. Mas também não é do vosso amor. Nem dos vossos amigos que não atendem a chamada. Passam o dia na cama, porque as portas só se fecham. Choram, até o ar faltar. Choram. Gritam. Batem na parede e a parede bate-vos de volta. Não sabem porque é que estão a chorar. Gritam coisas que não percebem e não entendem porque é que a parede é uma inimiga. A noite vem, provavelmente não se dorme. É o cheiro. O espaço cheio. O namoro que acabou quando nem começou. A tia da avó. É o gato, o cão, o chão, o medo, o tempo é - a vida. Não é a parede que é vossa inimiga. É a vida. Vocês não sabem porque é que os amigos não atendem a chamada mas provavelmente eles estão a atender outras chamadas. As da cabeça. Dos pulmões. Do coração. Das pernas a tremer. Das mãos a contraírem. Estão atender chamadas de não querer viver.
Eu sei - não se vê. Queria arrancar a cabeça e ter descanso. Queria que as lágrimas parassem e que o vizinho que anda em passos rápidos no andar de cima se calasse. O barulho sufoca-me. Tenho medo que ele desça e abra a porta de minha casa. A que eu não abro. Tenho medo que os passos acelerem tanto que o meu coração acabe por explodir com o ritmo. A culpa não é vossa. Mas imaginem, só por um bocadinho. Acordam, vestem-se. Essa manhã parece um bocadinho melhor então conseguem abrir a porta. Depois existe um mundo. As vozes. As pessoas. Os carros. A velocidade. O tempo. Os contratempos. Depois encostam-se. Choram. Estão sozinhos e as pernas tremem. É o coração. Os pulmões. O medo. A agressão. A nossa agressão -. Correm para casa mas as pernas não andam. Telefonam a alguém mas têm medo que liguem para a vida. Desistem. Esperam. Ficam ali. Sozinhos. Agarrados a nadas. Depois vão devagar, a cambalear. Voltam para casa. A porta fecha-se nas vossas costas com tanta força que vos empurra para a cama. Suspiram. É seguro.
A culpa não é vossa; mas não é de quem o sofre. São as marcas nos braços e os comprimidos. É o desespero. A esperança. A esperança que vem do desespero. Até desistirmos. Choramos. Gritamos. Batemos na parede. A parede bate-nos de volta. Não sabemos mais. Vocês não sabem o que é viver no fundo do poço porque o vosso poço tem uma água bonita. Nadam nele. Nos só nos afogamos. E a culpa não é de ninguém. Mas depois existem dias mais difíceis. Em que afinal as coisas são um pedido de socorro. E gritamos que precisamos de ajuda. Amanhã já não precisamos. Porque a ajuda está para lá da porta e tudo o que está para lá da porta parece que nos vai matar. Mas ás vezes, o que nos mata, está cá dentro. E não se vê. Não se sabe. A depressão é uma amiga imaginária que manipula. É uma porta fechada e paredes que nos batem.
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