o cheiro a mar - o cheiro a ti


Meu suposto querido diário,

Nunca o foste. Não existe felizmente este compromisso na ideia de te escrever, de te contar como estou e quem sou. Vou mudando. Já fui todos os outros; já me fui mais de mil vezes. Trago-te sorrisos. Está frio lá fora mas o Sol ficou, pessoalmente gosto quando o Sol fica. Mesmo que possa chover. Mesmo que possa levantar areia do chão e trazer-me comichão ao nariz, desde que ele esteja, eu gosto (muito).

Tenho sentido um formigueiro na barriga daqueles das histórias dos escritores apaixonados. Ou dos que sofrem por falta disso mesmo. Um aperto no peito – um suspiro – e por fim, uma vontade enorme de escrever. Apetece-me sumos naturais numa esplanada fresca. Apetecem-me mãos. Mãos pequenas. Da pessoa que salta só porque sim – fazendo jus a toda a pequena postura. (ai -)

Mantenho a desova, dou-me e não me dou. Entrego mas não me entrego. Sei lá. Apetece-me muito voar apaixonada por mim e apaixonada pelos outros. Apetece-me só voar.
Enquanto as asas não (me) são; enquanto o Sol não me chega, vou andando. Caminhando nos tornados de inspiração que percorrem o mundo. Devagar – tão devagar. Sou a revolução natural dos corpos inquietos e imaturos. Depois abraço-a. Em pensamentos. Depois abraço-a com toda a força com todo o brilho que pressupõe gostar. Um deleite e um derrame. Entornar-me na mesa do pequeno-almoço, como leite fresco, como pão que chega pela manhã. (mimos)

Vou ter de partir eventualmente, não quero. No fundo sei-o. Todas as mesas de pequenos-almoços em camisas largas e pernas macias abandonadas serão diferentes a cada manhã. Porque não posso ficar; nunca vou poder ficar mas por agora o meu lugar é aqui; a sorrir porque existes. À espera do cheiro a mar – do cheiro a ti.

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