Placebo - MEDS
Ir
ou ficar. Despir. Vestir. Rituais gastos pelas pessoas mais gastas ainda.
Prender e desprender – apaixonar e largar. Estes corredores insólitos que nos distinguem
as vidas das desejadas às ameaçadas, são espelhos da loucura que se transporta
nas almas imundas do caos da vida. No fundo, as ruas que nos afastam enquanto
pessoas de bem, são alas de hospitais dementes, de pessoas loucas como as
histórias guardadas no sótão do desastre – e todas as vidas escassas têm um sótão
do desastre, esses fantasmas no armário. Acho que está a chegar a
(des)primavera. As flores recolhem e as janelas já não estão enfeitadas por
curiosos. Os tapetes sacudidos nas varadas como pretexto para a união com o
mundo, são recolhidos e expostos a este pó com que pintas os lábios - uma e
outra vez. A imunidade acumula-se nos cantos das casas e fazem-se danças
sensuais em torno do infortúnio com que nos pintam a vida. Vamos rasgando as
páginas acabadas dos livros inacabados e guardando nas gavetas as
possibilidades de projectos usados como manipulação para a concentração no Eu. Somos
espécies raras de aves que eventualmente emigram para outros portos de abrigo
convenientes.
Por aqui, a arte que se faz é a de abandonar os hábitos de se Ser – e por sua vez,
criar-se este vestuário de não-primavera. É hora da recolha e as noites frias
avisam-nos que o caminho não é se não em direcção a uma casa – seja ela qual
for. Por aqui, a música que se faz é a de abandonar a voz que sempre se ouve –
e por sua vez, criar-se esta indumentária silenciosa que tem rotas pré-definidas
de vitórias construídas pelo espírito. Por aqui destapa-se os olhos e larga-se
no chão tamanha cegueira que nos engole a todos - cria-se um protesto interior
contra a necessidade de abandonar o que é a essência – recita-se poesia que
apela à consciência, enquanto a Primavera se despe e despede. Entretanto encontro-vos,
pardais, noutros portos; até já.
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